Há uns tempos, estava eu sentada num assento de comboio urbano, daqueles que fazem a ligação entre Porto e Aveiro, e segundos antes de partir, entra uma rapariga ofegante, que correu para não o perder e acaba sentada no banco à minha frente. Esta rapariga está realmente ofegante, mas respira de uma forma como nunca ouvi ninguém respirar e eu penso que terá alguma dificuldade respiratória e daí a estranheza do seu respirar... Começo a pensar em mil e uma hipóteses, mas à medida que a vou observando começo a aperceber-me de que se trata de uma pessoa diferente das demais que se sentam naquele quarteto de bancos, no qual me incluo. Esta rapariga, já respira com mais calma, mas no seu estabilizar para um respirar mais calmo faz sons diversos, que não identifico na minha mente como algo conhecido para mim. Ao observar com mais detalhe apercebo-me, não sei como, talvez alguma espécie de sentido inexplicável, que ela não ouve. E não ouve, e não ouve mesmo, pois todos os seus movimentos resultam em barulhos exagerados, desde o abrir da mochila, ao correr do fecho, ao arrumar do guarda-chuva. São sons estranhos para mim mas associados a objectos tão habituais... Esta rapariga não ouve e por isso age em consonância e quase parece que os objectos que manuseia sabem da sua surdez, pois eles próprios se comportam de modo diferente e emitem sons não ouvidos antes no mundo dos som. Tal como os objectos, também o seu corpo conhece a sua surdez e daí a respiração ofegante que se dá a liberdade emitir sem pudor, pois ela não sabe nem nunca saberá que o seu corpo o faz, quase que como sem autorização para tal, em segredo.
Parece-me interessante pensar como os nossos sentidos influenciam o modo como vivemos e interagimos com os outros e até mesmo com o nosso corpo e objectos. Pergunto-me em silêncio, quais serão os sons que emitem as pessoas que não ouvem nas mais diversas situações... por exemplo quando choram, quando riem, quando ficam espantadas mas não o querem mostrar... etc. etc. Como não se ouvem, não estão concerteza tão preocupadas em como se fazem ouvir...
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